2012/07/16

"Inimigo" por Joana Couceiro, 2012

QUID TUM? [1] 

«Quanto a mim, proclamarei que é arquitecto aquele que, com um método seguro e perfeito, saiba não apenas projectar em teoria, mas também realizar na prática todas as obras que, mediante a deslocação dos pesos e a reunião e conjunção dos corpos, se adaptam da forma mais bela às mais importantes necessidades do homem. Para o conseguir, precisa de dominar e conhecer as melhores e mais importantes disciplinas. Assim, pois, deve ser o arquitecto.

(...) 

Esta é a minha firme convicção: todas as cidades que, desde a mais recuada memória dos homens, caíram sob o domínio do inimigo, em consequência de um cerco, se lhes perguntarmos por quem foram conquistadas e submetidas, elas dirão que foi por um arquitecto, e que facilmente zombaram de um inimigo armado, mas não conseguiram aguentar durante muito tempo a força do engenho com que o arquitecto lhes apertava o cerco, as fortificações gigantescas com que as submergia, o ímpeto dos canhões com que as atormentava. E, pelo contrário, aos sitiados, nunca aconteceu sentirem-se tão seguros como com o auxílio e os estratagemas do arquitecto. Por fim, se recordarmos as expedições passadas, verificaremos certamente que foram alcançadas mais vitórias pelas artes e valor do arquitecto, do que pelo comando e auspícios de qualquer general; e que o inimigo sucumbiu mais vezes ao engenho daquele sem as armas deste, do que à espada deste sem os planos daquele. E o mais importante é que o arquitecto obtém a vitória com um pequeno exército e sem perder vidas.»

Leon Battista Alberti, «Da Arte Edificatória», Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2011, págs. 138, 139, 140. 

[1] Tradução: “E AGORA?”

2012/06/26

"Inimigo" por Pedro Bandeira, 2012



















No mundo realmente invertido, o verdadeiro é um momento do falso” 
(Guy Debord, Sociedade do Espectáculo)


No final de Maio deste ano a Galp lançou no Porto (imagino que também em outras cidades) uma campanha publicitária com o slogan: “a Galp tem mais uma energia positiva para a sua vida: a eletricidade”. Visível em outdoors de rua, esta publicidade tinha a particularidade de ter o logotipo da Galp constituído por duzentas e cinquenta e cinco lâmpadas que estavam acesas 24 horas por dia. Para quem elege a “sustentabilidade” como “responsabilidade corporativa” não deixa de ser, no mínimo, irónico. 

O supermercado Pingo Doce vende pipocas de marca própria, para micro-ondas, em embalagens cuja imagem gráfica assenta numa fotografia de uma sala de cinema nos anos 50 cheia de espectadores com óculos 3D*. A mesma imagem que está hoje, inegavelmente, associada a Guy Debord por ter sido capa da versão inglesa da Sociedade do Espetáculo. Não deixa de ser também, no mínimo, irónico que Debord, o bom usurpador de imagens de outros, veja a sua técnica de desvio situacionista (o détournement) explorada pela própria sociedade de consumo que critica. 

Ou será, afinal, a imagem que regressa ao seu lugar legítimo e de origem? Não é o Cinema o lugar das Pipocas e do Espectáculo?

Aparentemente (só aparentemente) os conceitos e as palavras foram desprovidas de significado, talvez pelo uso excessivo (pensamos, falamos e escrevemos demais). Aparentemente (só aparentemente) as imagens e os desenhos foram desprovidas de significado, talvez pelo uso excessivo (imaginamos , projectamos demais). Mas sofremos de horror vacui. Horror ao vazio; ao espaço em branco de uma folha de papel; ao silêncio de uma conversa a dois. 

Palavras e imagens que, do permanente confronto a que estão sujeitas, acabaram por se desgastar dando lugar ao consenso possível, expressão do relativismo contemporâneo, em que mesmo a nostalgia por qualquer ordem positivista é invalidada pelo próprio conceito de positivismo: “o Positivismo é um conceito que possui distintos significados, englobando tanto perspectivas filosóficas e científicas do século XIX quanto outras do século XX. Desde o seu início, com Augusto Comte (1798-1857) na primeira metade do século XIX, até o presente século XXI, o sentido da palavra mudou radicalmente, incorporando diferentes sentidos, muitos deles opostos ou contraditórios entre si” (Wikipedia). 

Contraditórios entre si. Tudo é válido. Uns estão doentes. Outros estão ausentes.

Estou a dizer que a burocracia se arrogou o direito de definir certos estados da mente como “doentes”. Uma falta de desejo de gastar dinheiro torna-se um sintoma de doença que requer medicação dispendiosa. Medicação essa que, depois, destrói a libido, ou, por outras palavras, destrói o apetite pelo único prazer que da vida que é grátis, o que significa que a pessoa tem ainda de gastar mais dinheiro em prazeres compensatórios. A própria definição de “saúde” mental é a capacidade de participar na economia consumista. Quando investimos em terapia, estamos a investir em comprar. E estou a dizer que, pessoalmente, neste preciso momento, estou a perder a batalha com uma modernidade totalitária comercializada e medicalizada”. (Jonathan Frazen, Correcções)

E a Arquitectura? 

A arquitectura também.

2012/06/23

"Inimigo" por André Tavares, 2012

Quem vai à Guerra dá e leva.


Não precisamos de inimigos. Compreendo a nostalgia anacrónica do Michel Toussaint, mas desenganem-se, nunca os arquitectos foram modernos e inteligentes versus reaccionários e estúpidos. A história já nos provou que olhar para o passado dessa forma apaga mais do que mostra: tudo é bastante mais complexo. Já o argumento do Pier Vittorio Aureli é mais atento e partilho com ele essa necessidade de contra-argumentar, de me entender por relação negativa com aquilo que me envolve. Talvez por isso mesmo diga: O quê? Inimigo? O meu inimigo é acreditar que ter um inimigo serve para alguma coisa. Meus caros amigos da Meta, compreendo a história do inimigo (conversámos sobre ela) mas não me convencem. Querem pancada, segue já a primeira estocada. Fogo amigo, diziam? Mas este fogo amigo não adianta a ninguém. Serve só como treino, porque todos sabemos o provérbio: Quem vai à Guerra dá e leva. Por isso, vamos a isso, mas vamos juntos. 
Porque é que eu digo que não precisamos de inimigos? Porque para isso precisávamos de saber o que queríamos, e não sabemos. Sabemos que queremos uma sociedade mais justa, que queremos menos ganância e mais partilha, que queremos, como arquitectos, ter oportunidade de construir, de transformar e de aplicar o nosso saber, hoje. E assim transformar as nossas cidades, a paisagem, a sociedade, em função dessa ambição que temos para existir. E sabemos, ou pelo menos esperamos que o nosso contributo venha a ser positivo e que daqui a uns anos possamos ser mais felizes. Mas? Como é que queremos fazer isso? Desconfio que não sabemos, talvez só se saiba depois de estar feito, isto porque sabemos que queremos fazer. 
Então para que vai servir o CPAM, para além de poder ser uma grande festarola? O que precisamos é de querer. E de sabermos ser capazes de fazer o que queremos. O resto é conversa.
Por isso é que insisto na inoperância do inimigo. Só poderemos ter um inimigo quando tivermos uma posição a defender (que não temos) ou um território para conquistar. Como não temos um território nosso, não podemos fazer frente a ninguém, sob pena de não termos terreno para recuar se a coisa estiver a correr mal. E não temos esse terreno. Não temos uma ideia comum ou um ponto de referência. Partilhamos apenas um certo desespero. Ou será que me engano?
É para isso que pode servir o CPAM (espero). Não para ser mais uma mítica reunião de arquitectos desesperados, mas para entendermos qual o nosso ponto de referência. O inimigo virá depois, naturalmente. Os inimigos, porque somos ambiciosos e o que está mal está no plural, em muitas frentes.

2012/06/19

"Inimigo" por Alexandra Areia, 2012

"ARQUITECTURA EM DEBATE - AVEIRO 1979",
colagem de depoimentos.






Um encontro de arquitectos tem sempre aquele ar de encontro de druidas, vindos cada um de seu lado, sem visco nem foice de oiro, mostrar as habilidades. Desta vez mostraram-se projectos e obras, o que é extremamente importante, uma vez que em 69, por estranho que pareça, tal não aconteceu (extremamente pressionados pelas condições sociais e políticas, os arquitectos assumiam-se sobretudo como “cidadãos empenhados”). João Luís Carrilho da Graça| O encontro de Aveiro foi minha primeira experiência significativa de troca amplas de ideias, instruções e orientações entre arquitectos que, sendo portugueses, trabalhando neste pequeno país num período tão rico de acontecimentos e transformações culturais, tão arredados costumam andar uns dos outros, às vezes vizinhos de porta. Domingos Tavares| Precisamos de procurar a nossa identidade cultural e de sítios para isso; encontros onde os conflitos sejam explícitos, onde possamos entender o assustador isolamento, e mexer nele. Madalena Cunha Matos e Luís Costa| “ARQUITECTURA EM DEBATE – AVEIRO 1979”, foi o título proposto para o encontro. Não houve “encontro”, não houve aceitações, não houve soluções. Simplesmente isto: Arquitectura em Debate. Houve arquitectura, tinha que haver. Houve debate, tinha que ser. Resultados: a ver (1). (1) do verbo ver. Eduardo Souto Moura| Parece que era necessário o discurso de alguém nem demasiado experiente nem demasiado inexperiente – mesmo se fingidor ou sobretudo por isso. Que assim são, na realidade, arquitectos, estudantes e toda a gente. Alguém além disso tão preocupado que não se preocupasse. Álvaro Siza Vieira| É pois, necessário multiplicarmos estes encontros, até para que se alcance mais rapidamente, na prática do debate, a essência da disciplina da arquitectura, abandonando progressivamente a afirmação de posições pessoais, que sempre acabam por bloquear uma clarificação de conceitos. João Paciência| Por isso, sinto que temos que fazer encontros destes, não todos os meses, que nos sai caro, rouba tempo e energia. Mas todos os anos que bem que seria. Domingos Tavares|


Aveiro79 em "inimigos": 
“casa do emigrante” [1], “pré-fabricação” [2], “bairros sociais” [3], “expansão dos aglomerados” [4], “a escola de arquitectura” [5], “ausência de critica” [6].

[1] A “casa do emigrante”, sobre a qual muitos arquitectos lançam a sua condenação e se calam. (Madalena Cunha Matos e Luís Costa)
[2] Uma quase recusa (?), por parte de muitos, em discutir os aspectos inerentes à utilização de sistemas industrializados de construção (incluindo a pré-fabricação) que, quer se queira quer não, fazem parte da nossa realidade, sobre a qual temos que intervir. (João Paciência)
[3] Os “bairros sociais” são nódoas identificáveis em qualquer tecido onde caíram. (...) As localizações dos conjuntos ou unidades habitacionais não mais para as periferias como locais para segregar os “bairros sociais”. (...) Não a uma imagem miserabilista de arquitectura de penúria.” (António Marques Miguel)
[4] Os projectos de crescimento (expansão) dos aglomerados são quase sempre ambição de “políticos” e não de desejos/ necessidades dos utentes. (António Marques Miguel)
[5] Na escola (Lisboa) o nosso quotidiano é feio e abafado. Confrontos e cisões. O silêncio e a imposição para nos responderem. (...) Algo vive e está crescendo dentro desse muros, apesar deles.” (Madalena Cunha Matos e Luís Costa)
[6] Do Pós-25 de Abril seria legítimo esperar uma maior fundamentação e consciência crítica, um maior aprofundamento das metodologias de projecto, uma maior e agora já possível exigência de rigor e de definição conceptual. (Pedro Vieira de Almeida)

 
Série de depoimentos publicados na revista Arquitectura, n.º134, «Arquitectura em Debate - Aveiro 1979».

2012/06/11

"Inimigo" por Pedro Baía, 2012






















Encontro Nacional de Arquitectos, Dezembro 1969


1. O Encontro foi o fim do mito dos problemas sectoriais e da eficácia das soluções sectoriais:
Foi A DERROTA DO ACTIVISMO ESCAPISTA.


2. O Encontro foi o fim do mito da classe como associação fraterna, na unificação da irrealidade de uma solidariedade corporativista:
NÃO SOMOS AMIGOS POR SERMOS ARQUITECTOS.


3. O Encontro motivou o aparecimento de agrupamentos informais que esquematicamente se distribuiram em ultrapassados, ortodoxos, oportunistas e não alinhados:
NÃO SOMOS ARQUITECTOS POR SERMOS AMIGOS.


4. O Encontro, organizado na ambiguidade, resolveu-se em oposição à tendência paternalista-dirigista-activista que, desconfiando da assembleia, se propôs impor-lhe uma problemática legitimadora da fuga à sua própria impotência:
HÁ MITOS QUE SE AFIRMAM APODRECENDO.


5. O Encontro foi início de um processo que acredita que só pela dinâmica da assembleia se pode descobrir porquês, comos e quandos:
A COMUNICAÇÃO É ESPERANÇA.


Alberto Oliveira
Luís Filipe Medeiros 
Manuel Vicente



[Este pequeno depoimento faz parte de um artigo de Carlos Duarte (publicado na revista Arquitectura, n.º110, pp.206-207) que reúne diversos depoimentos entregues à redacção da Arquitectura por alguns dos participantes do ENA – Encontro Nacional de Arquitectos realizado na Sociedade Nacional de Belas-Artes, em Lisboa, nos dias 6, 7 e 8 de Dezembro de 1969.]