2012/10/27

“Inimigo” por Miguel Silva Graça, 2012




















Deve-se inspirar a todos, e sobretudo aos cidadãos, um afecto pelo governo tão grande quanto possível, para ao menos se evitar que considerem os soberanos do Estado como inimigos. 

"Política", Aristóteles 
 (Livro VI, Capítulo V - Continuação do relativo à organização do poder na democracia) 


Do mesmo modo, deve um príncipe mostrar-se amante das virtudes e honrar aqueles que se destacam numa arte qualquer. Além do mais, deve excitar os seus cidadãos a exercer em liberdade as suas actividades (...), deve instituir prémios para aqueles que desejarem empreender tais coisas e para todos aqueles que, de qualquer modo, pensarem em ampliar a sua cidade ou o seu Estado. Além do mais, deve, nas épocas próprias do ano, dar ao povo festas e espectáculos. E como todas as cidades estão divididas em artes ou corporações de ofícios, deve ocupar-se muito destas, procurando-as algumas vezes, dando provas de afabilidade e generosidade (...). 

"O Príncipe", Nicolau Maquiavel 
 (Capítulo XXI - O que um príncipe deve realizar para ser estimado) 



Obter cem vitórias em cem batalhas não significa o máximo da excelência. A excelência mais alta está em obter-se uma vitória e subjugar o inimigo sem, no entanto, lutar. 

"A Arte da Guerra", Sun Tzu 
(Capítulo III, Estratégia Ofensiva)

“Inimigo” por depA, 2012




















O nosso Amigo é um Inimigo.
Vemos no “modelo Concurso” um amigo enquanto ferramenta essencial para jovens equipas de arquitectos: ferramenta para a experimentação (essencial na fase inicial de carreira), ferramenta para a partilha metodológica e de conhecimento e, obviamente, ferramenta de assalto a um saturado mercado de trabalho. Por outro lado, participar em concursos é um acto insano e insustentável para nós, para a profissão e para o mercado…
Não será melhor começar a jogar à macaca?

“Inimigo” por José Mateus, 2012
























Se há combate estratégico para os arquitectos nos próximos anos, ou se assim quisermos referir, o inimigo a abater, é sem dúvida a legislação ou normativas que comprometem globalmente a nossa actividade. 
Trata-se nomeadamente da formação de arquitectos em excesso; declínio do ensino com a exclusão dos professores com prática intensa de projecto; honorários por regular; concursos demasiado burocratizados e exigentes; licenciamentos incompreensivelmente demorados; normas e legislação da construção desfasadas da realidade sócio-económica do país, e, perda de autoridade do arquitecto na construção dos seus próprios projectos. A agravar este cenário, a legislação é extraordinariamente dispersa, tornando a sua verificação em projecto uma tarefa ainda mais difícil. Por fim, a Ordem dos Arquitectos, a quem compete lutar pela resolução destes problemas, rege-se por estatutos inadequados que comprometem decisivamente a eficácia da sua acção.

2012/10/24

“Inimigo” por Camilo Rebelo, 2012

"A LONG TIME AGO IN A GALAXY FAR, FAR AWAY…"






















MARTE = MCOA


 (Nota da organização: A propósito do projecto para o Museu de Arte e Arqueologia do Vale do Côa, a CPAM enviou um convite a Camilo Rebelo para que fizesse uma breve apresentação sobre a temática “Pós-Grande Obra Pública”)

“Inimigo” por Filipe Mónica e Luís Afonso, 2012

Os Concursos de Concepção 




























O Código dos Contratos Públicos, diploma legal que rege a Contratação Pública mimetizando os regimes legais antecedentes, estabelece, entre outros, dois admiráveis princípios: o foco de qualquer contratação na pura regulamentação da despesa pública, sem uma preocupação explicita em quaisquer critérios de qualidade; e o enquadramento da elaboração de projectos de arquitectura ao mesmo nível que, por exemplo, a contratação de serviços de limpeza. Então não é muito mais fácil contratar projectos como quem vai à mercearia comprar um rolo de papel higiénico? Apresentem-se as propostas, escolha-se a mais barata, adjudique-se! A um canto, em regime de excepção e com carácter opcional, apresenta-se moribundo o Concurso de Concepção. Para quê? Para quem? 
Formalidades e burocracias, avaliações e comparações, custos acessórios e grandes responsabilidades, concorrência desmedida e justificações, tempos excessivos e um enorme manancial de litigância... Não, não... à pressa, porque estamos aflitos e o papel acabou lá em casa. Não interessa se o “Scottex” é melhor. O “Renova” é mais barato e está aqui à mão. Viva o Ajuste Directo!

2012/10/23

“Inimigo” por Artur Almeida, 2012


ESTÁGIO: Puro eufemismo da palavra exploração 






















As pessoas servem-se da verdade quando ela lhes é útil, mas recorrem com retórica paixão à falsidade assim que se deparam com um momento em que a podem usar para produzir a ilusão de um meio-argumento (…) 

GOETHE, Johann Wolfgang von; A Nossa Falsa Verdade 


Etimologicamente, a palavra exploração representa, de um modo sucinto e objectivo, um abuso ou um aproveitamento consciente detido sobre uma determinada situação ou sobre uma determinada pessoa que se encontra, impotente e inconstitucionalmente, numa situação precária desprovida de qualquer tipo de direito, dignidade e, consequentemente, remuneração. 
Neste sentido, julgo que podemos considerar que, embora seja uma palavra histórico-social detentora de um elevado grau de negatividade, a exploração é, no âmbito da disciplina da arquitectura, o termo que melhor substitui e, consequentemente, caracteriza todo o período que, erradamente, todos os responsáveis pela sua criação e pela sua realização descrevem como estágio. Este, constituído por uma enorme diversidade de atrocidades e compadrios, despoletou, como consequência de um controlo diminuto ou inexistente, uma contratação selvagem e desmedida de jovens arquitectos que, infelizmente, estão dispostos a ser explorados até ao limite das suas forças e dos seus conhecimentos sem qualquer tipo de benefício ou recompensa. 
De modo a contrariar e a denunciar todo este sistema eticamente reprovável, acho que chegou o momento em que nos devemos, individual e colectivamente, manifestar dando a conhecer todo o descontentamento e a tristeza que nos envolve quando, indesejavelmente, nos encontramos sob a alçada de um conjunto de pessoas eticamente repugnantes que, enquanto arquitectos empregadores, se aproveitam, alegre e convenientemente, da situação frágil em que nos encontramos. Como tal, através da identificação e do aprofundamento de todos estes factores e de todos os intervenientes que empobrecem, social e disciplinarmente, a arquitectura, pretende-se alcançar, se possível, alguma conclusão conjunta que possibilite uma melhoria significativa deste fenómeno ou sistema que fustiga continuadamente toda esta jovem e qualificada classe trabalhadora! 
Por sua vez, convém salientar que se pretende, ainda, conhecer e discutir qual é a posição, a participação e a mais-valia que o organismo denominado Ordem dos Arquitectos poderá ou deverá representar ao longo de todo este processo, de forma a privilegiar e a defender todos os direitos e todos os princípios éticos ou deontológicos que regem e dignificam a profissão e a actividade do arquitecto. A par da publicação de um regulamento deontológico e da emissão, pontual, de comunicados relacionados com esta temática, considero que a Ordem dos Arquitectos deve procurar ter um papel muito mais activo e preponderante perante este conjunto de entidades patronais fraudulentas e execráveis. 
Em suma, no seguimento de tudo aquilo que foi dito anteriormente, é com um enorme prazer que, com o intuído de contrariar toda esta submissão e de gerar uma desejada reflexão ou discussão conjunta, gostaria de apresentar este tema sensível, incontornável e preponderante na Concentração Portuguesa de Arquitectos em Mação que se irá realizar no mês de Novembro do presente ano. 
Acredito que chegou o momento de dizer, pública e convictamente, basta!

“Inimigo” por Blaanc, 2012


O Sonho tem de morrer




















Tem de morrer o sonho de que se esperarmos sentados nos nossos ateliers, clientes endinheirados entrarão pela porta desejosos de adjudicar edifícios icónicos e sem limite de orçamento. 
Esta realidade é (in)felizmente cada vez menos provável e por isso deveríamos parar para pensar: quem não tem capacidade para contratar um arquitecto não precisa dele? Ou precisará tanto ou mais que todos os outros? O arquitecto de hoje tem de ser pro-activo e de ter a capacidade de reconhecer onde é que o seu conhecimento é mais preciso. 

Tem de morrer o sonho que os nossos únicos clientes são aqueles que nos procuram. 
A maioria dos criativos trabalha para criar produtos para os 10% de população mais rica do mundo. Mas porque não projectar para os outros 90%? 
A arquitectura não deve ser um luxo que só existe onde há dinheiro. Isto quer dizer que temos que ser arquitectos mais competentes e completos com capacidade para identificar problemas e simultaneamente encontrar todas as viabilidades, inclusive a económica para os solucionar, só depois realizaremos o projecto. 

Tem de morrer o sonho de que podemos construir o mundo como uma colecção de luxo de edifícios estrela. De facto, a arquitectura não pode ser livre de compromissos sociais económicos e ambientais, sob pena de tornarmos este pretenso desenvolvimento em insustentabilidade. 
Qual é o preço que estamos dispostos a pagar? 
“Desenvolvimento sustentável é o desenvolvimento que satisfaz as necessidades do presente sem comprometer as possibilidades das futuras gerações satisfazerem as suas próprias necessidades” in O nosso Futuro Comum, Comissão Mundial para o Desenvolvimento (1987). 
Quão longe andamos destes princípios? A verdade é que nos últimos 50 anos já destruímos mais o planeta do que nos nossos 200 mil anos de existência. 

Muitos dos nossos sonhos têm de ser reinventados, temos de reformar os nossos ideais e pensar para além da fluidez dos materiais, dos jogos de luz e da composição das formas. 

“We need to find our passion, we need to find what drives us forward. We are part of a generation of forces coming together. We need to find new ways of thinking and new ways are not bricks, new ways are ideas!” (in URBANIZED)

2012/10/14

“Inimigo” por Cláudio Vilarinho, 2012


Pés ao léu
























Em 2005 a figura do atelier próprio do cv aconteceu.
A classificação de alguma "coisa" está dependente dos critérios associados.
Curricularmente, para estes poucos anos, e para os colegas arquitetos, talvez o cv conseguido seja bom. Curricularmente, para estes longos anos, o cv conseguido não foi bom.
O cv um dia viu um par de meias na montra.
O cv um dia pensou comprar esse par de meias, em dois tamanhos diferentes, para levar para casa.
O cv apenas tinha algum dinheiro para o atelier, mas nunca para o cv.
Um dia, vencido o concurso do primeiro edifício público, o cv pensou comprar as ditas meias.
As meias não eram caras, mas custavam muito dinheiro para os honorários do ambicionado projeto.
Em 2011 com muita, mas mesmo muita força o cv envia o cv para dentro.
Em 2012, passado duas semanas do cv enviar os cvs para onde o Coelho sugeriu, estava aceite uma proposta.
Para além desta proposta, depois, no âmbito do envio dos referidos cvs pelo cv, aconteceram outras propostas.
O mês de Setembro, o primeiro, acabou com um grande, grande sorriso.
As 4 meias de tamanho 26 e 22 são very confortables...

2012/09/17

“Inimigo” por Paulo Moreira, 2012


Photoshop do Gabinete de Arrumação e Estética do Espaço Público






O Gabinete de Arrumação e Estética do Espaço Público [GAEEP] foi criado pela Câmara Municipal do Porto para "transformar a cidade num espaço mais bonito, agradável, destacar a sua riqueza patrimonial e ajudar a combater o vandalismo e a falta de civismo". O site oficial mostra alguns exemplos das intervenções promovidas: relocalizar ecopontos, colocação/pintura de bancos tradicionais, substituição de mecos, etc. Argumentando que "um pequeno pormenor pode fazer toda a diferença", o texto introdutório refere que os resultados dos seus serviços podem ser encontrados "pelos mais observadores" em diversos locais da cidade. Ora, na verdade não é preciso ser um bom observador para encontrar algo estranho numa das "intervenções piloto": uma tampa de pavimento de calçada desalinhada (antes) passou a estar alinhada (depois). Reparem que o GAEEP conseguiu rodar a tampa sem rodar os dois "olhos". Será disto que a cidade precisa, ser um lugar virtualmente mais "arrumado" e "estético”?



Photoshop de Fernando Guerra
















Na busca do "Mundo Perfeito", Fernando Guerra serve-se de alguns truques de Photoshop. Reparem nas diferenças entre as duas fotografias: numa delas, em primeiro plano, uma tomada de electricidade - daquelas caras, desenhada por um arquitecto famoso da nossa Praça, tão bem situada no cantinho inferior da parede, por cima do rodapé - foi apagada. A arquitectura que Fernando Guerra nos mostra não é da autoria de XY ou Z, é a arquitectura "perfeita" de Fernando Guerra. Nada contra o Photoshop, mas respeitem-se os elementos arquitectónicos que compõem uma determinada sala, edifício, ou cidade. Censurar alguns elementos 'mundanos' é, na minha opinião, um desrespeito por quem os desenhou e por quem perdeu horas a decidir o melhor lugar para colocá-los. 

P.S. As imagens que ilustram esta entrada foram retiradas do site "Últimas Reportagens". Não se pretende criticar de modo algum o autor da obra em questão, mas sim a forma como Fernando Guerra manipulou uma das fotografias dessa obra.