2012/11/19

“Inimigo” por Cristóvão Iken, 2012

Termos de Responsabilidade




Fará sentido um arquitecto, de cada vez que pratique um acto de apresentação de um projecto junto de uma entidade administrativa tenha que emitir e depositar uma declaração em que ateste ter nesse projecto cumprido com a legislação em vigor, mais ainda se esta é difusa por motivos que não lhe sejam de todo imputáveis? 

Faria, por analogia, sentido que um médico de cada vez que operasse um paciente passe um termo a dizer que irá cumprir com as regras da boa arte inerentes à prática médica? 

Faria sentido que um advogado de cada vez que entregasse uma peça processual em juízo a tivesse que fazer acompanhar por um termo que atestasse que na sua elaboração havia cumprido e respeitado todas exigências legais inerentes à prática jurídica? 

Julgamos nós arquitectos, todos contentes, que saímos favorecidos por assumirmos responsabilidade desta forma, através de acto formal de assinatura de um termo responsabilidade, dando ideia que isso seja sinal de maioridade profissional. Não, é exactamente o contrário. Aquilo que para uns pode parecer um acto que nos dignifica, é, na realidade, algo que nos menoriza perante a sociedade. 

O arquitecto não pode encontrar o reconhecimento alheio e auto-satisfação da sua existência profissional na capacidade de assunção, perante terceiros, de um risco, mais ainda se esse risco é incomensuravelmente superior à sua efectiva capacidade de responder, quando demandado, pelos danos porventura causados a terceiros.

2012/11/07

“Inimigo” por Luca Martinucci, 2012

Two Minutes Hate 
(em Mação)




Provavelmente estou enganado. 
Mas não posso deixar passar em branco. As identificações de inimigos que até agora foram entregues, recordam-me, de certa maneira, os “dois minutos de ódio” do 1984. 
Esta espécie de exaltação do “inimigo pessoal” deixa-me com algumas dúvidas. 

Bem sei, bem sei, a construção do inimigo é necessária à manutenção da sociedade. Identificando tudo o que não somos, ou não queremos ser, projectando os nossos medos no outro e longe de nós, marcamos os nossos limites e definimos a nossa identidade. 

Umberto Eco descreve em “Contrução do Inimigo”, séculos de inimigos, “indentifica-os” e apresenta as provas, as características. 
O Inimigo: 
Fede, 
é Feio, porque não é bom 
é Diferente, por isso faz aquilo que nós não fazemos. 
Pode ser, dependendo de épocas e latitudes, Peludo, Careca, Alto, Baixo, Negro ou de outra cor de pele diferente da nossa, Mulher, Hebreu, Grego, Alemão, Francês, Austríaco, Italiano, do Sul ou do Norte, Pagão ou Cristão, nos últimos tempos está na moda o Muçulmano. 

O que dizer? Tenho medo. Tenho medo que o fechar-se no centro do país a falar dos problemas pessoais, seja o “Grande Inimigo”. 
Porque esta visão egocêntrica pode não dar a perspectiva correcta. Temo que todos descubram quão seja perigoso para a nossa profissão o pacote da Adobe! Em particular o Photoshop, quando pode acabar nas mãos de criminosos que apagam a tomada eléctrica, e que não podiam ter um nome mais adequado que Guerra! 
Vejo já arquitectos armados de foquilhas e iphones, a voltar de Mação aos gritos “Guerra ao Photoshop! Guerra ao Photoshop!” 

Mas na realidade, como diz Eco: 
“Parece que não seja possível renunciar ao inimigo. A figura do inimigo não pode ser abolida dos processos de civilização. A necessidade é inata até ao homem brando e amigo da paz. Simplesmente transporta-se a imagem do inimigo de um objecto humano a uma força natural ou social que de algum modo nos ameaça e que deve ser vencida, seja ela a exploração capitalista, a poluição do ambiente, a fome no terceiro mundo. Mas, apesar destes serem casos “virtuosos”, como lembra Brecht, também o ódio pela injustiça deforma a cara. A ética é portanto impotente frente à necessidade ancestral de ter inimigos? Diria que a instância ética ocorre, não quando se finge que não hajam inimigos, mas sim quando se procura compreendê-los e colocar-se no seu lugar. (...) Procurar compreender o outro significa destruir o cliché, sem negar ou eliminar a alteridade. Mas sejamos realistas. Estas formas de compreender o inimigo são próprias dos poetas, dos santos ou dos traidores.” 

Arriscando ser um dos três, Santo, Traidor ou Poeta, posso dizer que para mim as formas para destruir o cliché e compreender o inimigo podem ser tomadas como uma estratégia de ataque. 

Marinella Sclavi, no seu livro “A arte de escutar” descreve em 7 pontos as regras para a gestão criativa do conflito. Tudo se baseia em aceitar o diferente como possível e assim procurar compreender outros pontos de vista para além do nosso, a arma é a ironia. 

Alexander Langer identifica em “Il Viaggiatore Leggero” aquela que pode ser uma nova atitude necessária à nossa profissão, ainda mais num período de crise como o actual: “Costrutores de pontes, saltadores de muros, exploradores de fronteira.” Coisas que no fundo um bom arquitecto sempre fez.

“Inimigo” por Moov, 2012

"Porque é que as Concentrações de Arquitectos são Prejudiciais à Internacionalização”


Gerard Castello Lopes

“Inimigo” por Teresa Ferreira, 2012



Estaleiro de Saint-Alban, século XIII 


Cuidai dos vossos monumentos e não tereis necessidade de restaurá-los. (…) fazei-o amorosamente, com reverência e continuidade, e mais de uma geração poderá ainda nascer e morrer à sombra daqueles edifícios” (John Ruskin, The Lamp of memory, 1849).

2012/11/06

“Inimigo” por Pedro Bismarck, 2012

Anjos vazios / cidadãos sem voz




Quando considero o homem contemporâneo eu vejo-o como uma cantora de coro, que abre e fecha a sua voz sincronizada com o ritmo da música, mas sem pronunciar qualquer nota. Afinal de contas, todos os outros estão a cantar! Ela finge que canta porque está convencida que a voz dos outros é suficiente. Ela comporta-se assim porque perdeu a fé na significância das suas próprias acções. O homem contemporâneo é sem fé, totalmente sem esperança na sua capacidade de influenciar a sociedade onde vive através do seu comportamento.

– Andrei Tarkovski, Entrevista a Gideon Bachman 

Negligencia-se muito facilmente hoje em dia que os seres humanos são média primários…são potenciais mensageiros, do grego ‘angeloi’, anjos, informadores do estado de coisas…Vivemos em nós uma grande morte dos anjos – as últimas pessoas são anjos vazios, não-mensageiros, homens mudos…Para os deserdados e despiritualizados, não existe missão, não existe transmissão, nenhuma mensagem a passar… 

– Peter Sloterdijk, Ensaio sobre a intoxicação voluntária 

Habituamo-nos, desde algum tempo para cá, a declararmo-nos convictamente cidadãos, designação que surge frequentemente associada a uma certa e curiosa adjectivação: responsável, consciente, etc… Mas nenhum de nós (excepto aqueles que tomaram para si essa actividade) se qualifica a si mesmo de político. E, no entanto, politico e cidadão, isto é, o politikon e o civis, partilham uma certa afinidade, já que ambos designavam os habitantes que constituíam, respectivamente, a comunidade da polis grega e da urbe (civitas) romana. Contudo, há entre estes dois termos e na sua origem uma essencial distinção que não só subsistiu ao longo de todo processo histórico como permitiu, inclusive, que estes viessem a designar coisas substancialmente diferentes. Aquilo que está em causa nesta crise actual, não crise da economia ou das finanças, mas crise da democracia e da política, tem precisamente um dos seus hipocentros nessa fractura que se operou entre a palavra polis (cidade) e a palavra civitas (cidade) e que faz o núcleo do actual sistema em que vivemos. Um modelo que ao oferecer-nos o jardim encantado mas sem frutos da cidadania, retirou-nos a possibilidade de um acesso quotidiano à política. Fruto precioso, o da política, que para Aristóteles, era a mais alta condição a que todo o homem livre devia aspirar. 
O que poderá ser ainda essa natureza política que nos pertence? E como poderemos incorporar essa politicidade no jardim vazio de uma cidadania e de um quotidiano que perdeu a sua voz e a sua palavra, isto é, que deixou de acreditar na relevância política das suas acções na coro-geografia da polis, é a tarefa-crítica, tanto individual como comum, que urgentemente nos cabe pensar.

2012/11/05

“Inimigo” por José Pedro Torres

Práctica profissional no Reino Unido

A minha proposta de intervenção centra-se na experiência profissional no Reino Unido, apresentando um modelo de desempenho profissional instituido e certificado como combate ao inimigo da precaridade. 

No Reino Unido a profissão de Arquitecto é regulada e promovida por dois organismos distintos: o ARB – Architects Registration Board e o RIBA – Royal Institute of British Architects. O primeiro é o orgão governamental que define o código de conduta dos arquitectos, regula a profissão e gere o registo dos arquitectos. O segundo contitui o órgão nobre da profissão, que define normas e standards de serviços e de promoção e divulgação da arquitectura. 

Para o exercício da profissão de arquitecto como projectista basta apenas efectuar o registo no ARB e o cumprimento das exigências regulamentares como sejam a obrigatoriedade de seguro profissional. O ARB é ainda responsável por analisar queixas e proceder disciplinarmente, impondo penas com base na decisão de um tribunal. 

No entanto, ainda que sendo o RIBA um órgão de inscrição facultativa, é ele que confere normas, standards e um mais elevado estatuto de prática profissional, para além de conceder benefícios e facultar informação, análises e investigação aos seus membros. 

É esta conjuntura de responsabilização e de reconhecimento do arquitecto perante a indústria da construção em geral e os seus clientes em particular que pretendo abordar pela análise de algumas exigências e boas prácticas, fundamentais na afirmação profissional do arquitecto na sociedade e na sua valorização face a outros grupos de profissionais creditados ou não. 

De modo particular serão abordados os seguintes pontos: 

. Estatuto e responsabilidades de um Chartered Architect e de uma Chartered Practice conferido pelo RIBA;

. O PII - Professional Indemnity Insurance, seguro obrigatório no exercício da profissão enquanto projectista; 

. Penalidades e multas por uso irregular do título de arquitecto, conduta indevida e trabalho incompetente; 

. CPD - Continuous Professional Development, formação contínua exigida.

“Inimigo” por Maria Rita Pais, 2012

Edificação ou umbigo?


1. A profissão do arquitecto tem uma essência inerente ligada à criação e ao belo. Esta proximidade desenvolve, no arquitecto, o seu lado sublimativo que, por seu lado, dá força à questão da autoria da obra de arte. Em Portugal, esta ideia está bastante desenvolvida sob a forma de pequenos ateliers de arquitectos, que apesar do interessante trabalho de aprofundamento intelectual e projectual, se mantêm à mercê de um mercado e de políticas de território com demasiado poder em relação ao pequeno atelier que necessita de encomenda para sobreviver. 

2. Criam-se dois vícios: por um lado, um star system aliado à cultura global da imagem facilitou desenvolver uma arquitectura de traços icónicos (logótipos), distinguindo o atelier como marca; por outro, esta cultura de imago dá alimento a um mercado editorial, ele próprio em crise, sedento de imagens e da atenção de novos leitores. Contudo, os arquitectos ficam pouco aclarados e destituídos de um lado muito relevante em arquitectura: a solução de problemas. Este afastamento do âmbito estratégico da profissão desenvolveu, nos últimos anos, visões isoladas, artísticas, mas egocêntricas, que colocaram o arquitecto à margem dos centros de decisões para a comunidade. Não se trata do afastamento em relação à arte, mas do afastamento em relação ao real. 

3. O meu inimigo é a arquitectura apenas pensada como imagem ou edificação. Actualmente, quando quase tudo já foi construído e colocados em cenário de crise, os problemas são mais evidentes. O arquitecto tem capacidade criativa para resolver problemas de estruturação ou de restruturação sob um ponto de vista social, técnico ou político através de soluções espaciais (materiais) ou apenas soluções estratégicas (imateriais). Desta forma, tem o poder de sair do limbo do arquitecto/artista e se (re)posicionar no centro das necessidades reais das pessoas e, sem recusar a sua visão do belo, tomar o lugar daqueles que, nas suas visões mais pragmatistas (económica, técnica, gestora) têm tomado um lugar que deveria igualmente pertencer ao arquitecto. 

4. A materialidade e a poética são consequência e não pontos de partida do trabalho do arquitecto dos nossos dias. Ao distanciar-se do objectivo exclusivo de construir, a arquitectura pode solucionar novos paradigmas e descobrir novas valências artísticas e projectuais.

“Inimigo” por Susana Ventura, 2012

Querido Edifício:
As casas podem ser de palavras, porque as palavras podem ser, também, armas.



A Ordem dos Arquitectos fez um inquérito a todos os arquitectos sobre a forma como cada um exercia a sua actividade, actualmente. 
Gostava de o ter recebido para poder averiguar se, para o dito, é válida a condição de “arquitecta teórica” e se são aceitáveis as actividades de investigação e escrita para a Ordem que, aparentemente, regula a actividade dos arquitectos. Numa entrevista que fiz a Beatriz Colomina, lembro-me desta afirmar (e sempre o fez) que se considerava uma historiadora de arquitectura. Não era arquitecta, porque não exercia arquitectura (independentemente do que se possa entender por “exercer” arquitectura), como também não era crítica, porque não gostava de escrever sobre arquitectura contemporânea ou sobre arquitectos ainda vivos. Preferia os mortos, dizia. (Talvez porque esses já não se erguem das campas para contestar.) Todos sabemos que a sua opinião é, na realidade, uma versão light da do seu marido, Mark Wigley, que, recentemente, refez, por sua vez, a sua no que diz respeito à crítica. E façamo-nos esquecidos das vezes que Colomina escreveu sobre Rem Koolhaas ou Frank Gehry... Não obstante, o exemplo de Colomina sempre me deu algum conforto na minha escolha pessoal, pelo que me considero uma arquitecta teórica. Não uma historiadora de arquitectura, nem uma crítica (figuras pelas quais tenho alguma desconfiança, quando, cada vez mais, se confunde crítica com comentário, e sobre as quais se deveriam ler algumas notas de Maria Filomena Molder sobre a obra de Walter Benjamin), mas sim uma teórica. Os meus pais - não arquitectos e pragmáticos - arrepiam-se, quando me ouvem dizer isto, enquanto Peter Zumthor, por exemplo, abana a cabeça e diz ser impossível. É uma escolha impossível. Ser arquitecto equivale, para si, a construir edifícios. Eu digo-lhe, o que sempre acrescento ao espanto de tantos outros: faço arquitectura, escrevendo. Crio espaços, que são tão reais quanto os espaços que se constroem, mas com palavras. Não são espaços de palavras, aqueles espaços que as palavras criam, necessariamente, quando se escreve, espaços de silêncio, espaços de contemplação, espaços de revolta. Mas espaços arquitectónicos (que espaços são esses que apenas pertencem à arquitectura de direito, que se podem dizer espaços arquitectónicos? Encontrar-nos-emos lá.), que podem ser, igualmente, de silêncio, de contemplação ou de revolta, que criam a desejada intimidade entre corpo e espaço, não obstante este corpo e este espaço serem compostos de palavras, expressando, sempre, contudo, a carne, os ossos, o sangue. As palavras, na sua infinita plasticidade, são capazes de criar, igualmente, arquitectura. Podem ser luz, pedra, cor, sem, inclusivamente, estas mesmas palavras aparecerem enquanto palavras no texto. Podem ser tempo, movimento, leveza. Podem ser árias ou gritos. E, podem ser, também, armas.

“Inimigo” por Bernardo Amaral, 2012

A tirania do Mercado 





É fundamental reconceptualizar a prática arquitetónica, enquanto agenciamento num modelo económico (e biopolítico) de produção espacial. 

Consideremos a actual crise como impasse político, uma guerra entre um regime Neoliberal e o actual Estado Social Europeu, ainda sob controle de uma democracia parlamentar (é muito mais do que isto). O Mercado, feito Leviatã transnacional e multitentacular, foi ganhando cada vez mais controle sobre os meios de produção de espaço, afectando através de um biopoder neoliberal, a forma como fazemos arquitectura, mas também como a vendemos e “consumimos” ou habitamos. É importante descontruir estes mecanismos, se pretendermos que a prática arquitectónica seja algo mais que a produção de mercadoria. Nesse sentido, proponho como saída da Arquitectura para a actual crise, a saída do Mercado, que a domina e oprime. 
No seguimento desta proposta e baseado em reflexões derivadas da minha prática profissional enquanto arquitecto, promotor e habitante procurarei ensaiar visões alternativas à Tirania do Mercado, nomeadamente modelos de promoção imobiliária não comerciais ou sem fins lucrativos ( promovido por movimentos sociais, associativa ou cooperativa).

2012/11/04

“Inimigo” por Duarte Pape, 2012

“Portugal e os PALOP” 




Arquitectura portuguesa erguida em África ao longo de séculos.

Falamos como se de um legado se tratasse, arquitecturas deixadas ao seu cuidado, como uma sobrevalorização da memória e de uma profunda herança pesada.

Arquitectura que gerou conceito e preconceito, gerou repugna da vossa / nossa própria história.

Projectada por “nós” e erguida por “eles”.

Lidar com mudanças de realidades / mentalidades. Preservar e valorizar a nossa / vossa herança, ou seremos nós a mudar o nosso pré-conceito ao que chamamos Património?

Falamos de Kinaxixe em Luanda, Palácio do Governo em Bissau, das Roças em São Tomé e Príncipe, ou Palácio do Governo Ngiva no Cunene.

“Inimigo” por Filipe Santos Marinho, 2012




























A minha candidatura ao CPAM é a comunicação de uma resolução pessoal enquanto profissional liberal de arquitetura. Após um balanço de três anos, percebi que o cliente de arquitetura se aproveita da precariedade e da falta de unidade dos arquitetos. O cliente de arquitetura diz-me com frequência, que há quase quem ofereça o serviço que eu lhes estou a cobrar. Esse cliente de arquitetura já eu aprendi a deixá-lo ir, sem remorsos. Mas não foi fácil. Só depois de muitas “pauladas” resolvi dizer: basta! Mas o cliente de arquitetura não é o inimigo. 

O termo “Wanted”, que serve de introdução, pode aqui ser lido de duas formas. Por um lado: 
- “Querem-se” arquitetos! Arquitetos que, na apatia da encomenda pública e privada, não se deixam subjugar ao cliente de arquitetura. 
- São “Queridos” arquitetos que se saibam valorizar e com isso a arquitetura. 
Por outro: 
- “Procuram-se” os arquitetos que não se fazendo respeitar, não percebem que estão a ser os seus, os nossos, maiores inimigos! 
Querendo e procurando mudanças, passei a olhar para outras profissões e percebi que outros profissionais, a certa altura, souberam valorizar-se e fazer-se respeitar pelos seus clientes. Como? Tornando-se indispensáveis. Não perdem tempo com quem não respeita o seu trabalho. Instauraram uma cultura de pagamento dos seus serviços. 
À imagem do “Operário em Construção” de Vinícius Moraes, eu tornei-me um arquiteto em construção. E com isto desenvolvi um manifesto para colocar no meu site profissional, bem como a futura implementação do meu preçário com a instauração do preço das consultas, visível e acessível para os meus futuros clientes. 
A partir de agora sei que só me entram no escritório aqueles clientes que são verdadeiramente clientes, ou seja, que sabem que por um serviço pedido existe o retorno da remuneração. 
É esta a minha resolução e a qual estou a pôr em prática. Considero que o evento CPAM pode ser um bom local para a poder comunicar aos meus colegas de profissão. 
Em baixo deixo uma transcrição de uma parte do texto: 

Arquiteto em construção… 
O cliente de arquitetura não sabe o que é arquitetura. 
Como não sabe o que é arquitetura, não sabe porque precisa do arquiteto. 
Como não sabe porque precisa do arquiteto, acha que não precisa do arquiteto. 
Como acha que não precisa do arquiteto também não sabe o que faz o arquiteto. 
Como não sabe o que o arquiteto faz, também não sabe que serviços presta. 
Como não sabe que serviços presta, chega a pensar que o arquiteto não presta. 
Ao pensar que o arquiteto não presta, desvaloriza os seus serviços. 
Como desvaloriza os seus serviços, o trabalho do arquiteto, para o cliente, vira um risco ou um boneco.
Como o trabalho do arquiteto, para o cliente, vira um risco ou um boneco sente escrúpulo por ter que o pagar. 
Escrupulosamente, o que quer pagar ao arquiteto é aquilo que ele acha que o seu trabalho vale. 
Assim, mais vale o arquiteto não fazer arquitetura. 
Como mais vale o arquiteto não fazer arquitetura, o arquiteto não trabalha. 
Como não trabalha tem tempo para pensar. 
Ao ter tempo para pensar, pergunta-se porque é que o cliente de arquitetura não sabe o que é arquitetura. 
Ao perguntar-se porquê, assume, de seguida, a responsabilidade por não ter sido capaz de apresentar a arquitetura ao cliente. 
Ao assumir essa responsabilidade, o arquiteto entende, agora, porque é que o cliente de arquitetura não sabe o que o arquiteto faz. 
Ao entender porque é que o cliente de arquitetura não sabe o que o arquiteto faz, o arquiteto aprende uma grande lição. 
Uma tão grande lição, não tardará a ser posta em prática. 
(…) 
Caro cliente de arquitetura o arquiteto está em construção...

2012/11/03

“Inimigo” por José Manuel Pedreirinho, 2012

Arquitecturas não construídas vs Território não construído 
Complexidade e contradição do não construído * 

Julio-Romano-Mantoue-geants-Point-to-Point-Studio


Tenho para mim que a arquitectura não construída, não é arquitectura, mas sim projecto de arquitectura. 

Referenciando Manuel Taínha, que naquele sua refinadíssima maneira de se exprimir, dizia que "a arquitectura não é uma disciplina, mas não é menos que uma disciplina", podería dizer que a arquitectura não construída, não é arquitectura, mas não é menos do que arquitectura. 

Quanto ao território poucos tão bem como Gregotti o terão entendido e expresso melhor do que quando ele o considera "composto pelos traços e memórias da sua própria história.” 

Poderíamos pensar que entre a arquitectura e o território se colocam apenas problemas de escala, e talvez o seja, mas só se entendermos a escala não apenas na comparação das suas dimensões físicas, mas na complexidade das relações de tempos, espaços, culturas, sociedades e gentes que as foram ajustando a necessidades quase sempre profundamente contraditórias. 

Parece-me que só nesse sentido poderemos fazer a abordagem das arquitecturas e dos territórios não construídos. 

* Por apropriação abusiva e não autorizada de Robert Venturi

“Inimigo” por Mónica Martinez Marques, 2012

O plano, o projeto e o inimigo 



























Quem nunca sentiu vontade de projetar sem programa nem legislação nem planos - vontade de projetar no vazio, de criar sem limites? 
No entanto não devemos esquecer que, mesmo que hipoteticamente sem regras, projetaríamos no mais ou menos “cheio” ou seja, somos sempre condicionados de alguma maneira – assim o consigamos perceber! 
A existência de planos urbanísticos a montante do projeto constitui sem dúvida um elemento condicionador do mesmo mas será um inimigo ou um aliado? 
O planeamento urbanistico é visto por muitos projetistas ou gestores do território como um problema ... à partida mal resolvido ... que servirá sem dúvida para complicar… 
O Planeamento Urbano estabelece limites, naturalmente que o faz, mas acima de tudo tem a obrigação de analisar interdisciplinarmente, sintetizar e apresentar ideias, modelos, critérios com alguma maleabilidade e capacidade de acolher diversas soluções satisfatórias concorrentes para o conceito global definido. 
Lamentavelmente não existem só bons planos, existe planeamento urbano castrador sem ideias, inflexível, inoperativo e desinteressante para os diversos agentes de transformação do solo. Mas também existem interpretes (de planos) meticulosos e equívocos os quais nas suas leituras cegas transformam boas ideias em más regras… 
Por definição o Planeamento Urbano não é inimigo da qualidade da arquitetura! 
Dizem que é a capacidade do Arquiteto de interpretar complexas sinfonias, a sua visão abrangente, o cruzar fronteiras e o combinar diferentes demandas que o torna um ser tão especial! 
Então o planeamento urbano é mais um instrumento da orquestra, um instrumento construído certamente com um bom propósito e num determinado contexto e como qualquer outro tem o seu lugar na sinfonia ... desde que não procure abafar os outros instrumentos… 
O plano não deve querer substituir-se ao projeto nem o projeto negar o plano. 
Arquitetos planeadores e Arquitetos projetistas separados pela escala mas unidos no território - ideias, empatia e bom senso são essenciais! 
Na realidade, por um ou outro motivos, a luta continua – inimigos??? Não!!!

“Inimigo” por Edgar Brito, 2012

O engenheiro





























Jean Rouch (1917-2004) foi um engenheiro da École des Ponts et Chaussées, antropólogo e realizador francês. Fazendo parte da Résistance Française, Rouch dedicou o início da sua (curta) carreira de engenheiro a implodir as pontes que pouco antes havia estudado na escola, de modo a impedir os avanços nazis. 

Após tal “realização” profissional, Rouch fixou-se em África, dedicando-se à antropologia e ao cinema, sendo responsável por importantes contribuições na antropologia e no cinéma-vérité. 

Em tempos de crise, com Fundações e Museus a encerrar, não faltará muito para que os actuais equipamentos culturais sejam reconvertidos em arenas comerciais ou alienados a investidores estrangeiros. 

Mas o Inimigo, neste caso o engenheiro de estruturas, não vira a cara à luta, e propõe uma reinterpretação da ouevre inicial de Rouch. Implodir pontes é fazer ganir os seus pontos de apoio, o que constitui uma interpretação perversa da citação de Perret, que com ela pretendia definir arquitectura. 

E é isso que procuramos: questionar a existência das obras premiadas e de referência no contexto actual, enquanto se indaga quais podem ser os pontos de apoio da arquitectura, da engenharia e da construção, nos dias que correm.

“Inimigo” por Paulo Costa, 2012

"O Inimigo da Terra"
Habitat, Natureza e Ética






Algures numa entrevista, ESM afirma que “a sustentabilidade deveria ser algo intrínseco à obra de arquitectura. Da mesma forma que a arquitectura pretende responder a problemas sociais e funcionais, deveria por si só ser sustentável”… Mas tão apriorística condição sine qua non verifica-se na prática? Em todas as práticas? 
Na prática, o que verifico é que o arquitecto inimigo da arquitectura busca condensar imagens, formalizações de aspirações a publicações, inspiradas em viagens e trips, no terreno ou na revista, no material ou no digital, mais do que apoiar-se em processos construtivos que fazem a leitura das reais condições do trabalho necessário, realizado com o mínimo necessário e o máximo proveito possível. “Less is more”, diz a t-shirt; a mesma que nas costas tem escrito “Shit happens!”. O que vejo - vezes demais para que não seja assustador - são realizações estéticas desprovidas de qualquer interesse num sentido ético ou numa perspectiva social e ambiental do ser Arquitecto. As preocupações visuais ocupam demasiadamente as sinapses de demasiados destes novos arquitectos que no espaço de uns meros 10 anos dilataram os números da Ordem de abaixo dos 10.000 para mais de 20.000, saídos de fábricas de arquitectos para as fileiras do desemprego (e já com o título de Mestres, não vá o cliente duvidar da competência; mestres que não sabem a diferença entre tijolo vazado e tijolo maciço... burro). 
E esta tendência faz escola. 
O mercado “auto-regula-se”: se é imagem que interessa é imagem que terão. 
As magazines proliferam. E os concursos promovidos por este e aquele site vendem a ilusão de se poder saltar para a ribalta dos starchitects da noite para o dia. 
E a indústria também agradece (ou parte dela, maioritariamente estrangeira) assim como as empresas que comercializam todo o tipo de gadgets ecológicos prontos a enfeitarem a posteriori ingénuos edifícios com uma sustentabilidade sobreposta, legitimados por regulamentos cheios de boas intenções com nomes premonitórios como ReSECE. 

Salubridade, economia e decência. 
Busquemos uma arquitectura que mais do que ser a materialização do sonho de um homem seja o suporte que permite os homens sonharem num mundo mais orgânico e equilibrado, que dê forma no presente a um futuro possível à medida das nossas possibilidades como povo e dos nossos anseios como colectivo. E talvez abrir portas a novas potencialidades arquitectónicas que de outro modo ficarão reduzidas como sempre às mãos dos tecnocratas. Não que me oponha ao que o desenvolvimento tecnológico e a pesquisa científica possam trazer ao campo da arquitectura; simplesmente porque o advento do FUTURO e o deslumbramento tecnológico foram as razões que nos trouxeram a este estado caótico da nossa existência pós-industrial. 

É possível encontrar novamente uma ligação equilibrada e ética entre Homem, habitat e natureza?

2012/11/01

“Inimigo” por Guida Marques e Maria Manuel, 2012

O arquitecto





O arquitecto engordou. Encheu a barriga, encheu-a bem cheia. 
O primeiro inimigo é a própria classe profissional que se esqueceu de tornar claras as suas competências e de incluir no banquete a receita detalhada da educação, da construção e da urbanidade. Legitimar o seu status quo não é mais uma alternativa viável, é preciso encarar a realidade social, política e económica por mais embaraçosa que seja.
O arquitecto empaturrou-se até à extinção. A comida acabou mas o apetite mantém-se. 
Para não ser porco o arquitecto tem de perder a barriga. 
Já chega de arquitectos gordos. 

“But the success of our discipline is proportional to the service we offer, and how necessary we make ourselves. (...) We have to take the lead in these discussions (...). We as a profession have to change our habits too.”
Peter Märkli interviewed by Samnuel Penn in Foundation for Architecture and Education, Janeiro 2012

2012/10/29

“Inimigo” por Tiago Lopes Dias, 2012























Pensar no Inimigo leva-me ao romance de Dino Buzzati, “O Deserto dos Tártaros”. 

Este é a história do oficial Giovanni Drogo e da sua estadia no Forte Bastiani. Destacado por quatro meses, que lhe parecerão inicialmente longos e penosos, Drogo começa no entanto a sentir uma estranha afeição pela fortaleza. Fronteiriça a um deserto, isolada da civilização mas povoada por murmúrios de míticos inimigos (os Tártaros) e notáveis façanhas, a inóspita construção vai, pouco a pouco, enfeitiçando Drogo, que ali se deixa aprisionar. Passam os quatro meses, e logo de seguida mais um ano, outro ano, dez anos, acabando por terminar ali os seus dias, tendo por única e fiel companheira a solidão, sem nunca avistar o tão ansiado inimigo. 

O romance de Buzzati permite múltiplas leituras, mas para o que nos une hoje aqui, vou-me centrar na ideia de fortaleza. Só a grande ameaça a justifica, só a perspectiva da grande batalha define com exactidão os seus limites e lhe dá um valor simbólico. Esta era ainda a ideia que presidia (e unia) esse grande bastião chamado CIAM, que tinha o seu alvo bem definido e ao qual não faltava a devida aura mítica. Mas nos últimos 20-30 anos, os arquitectos, tal como Giovanni Drogo, embrenharam-se na construção do seu Forte sem saberem de quem se deviam defender, ou a quem deviam atacar; pior ainda, sem perceberem que a guerra se tinha agora de fazer com outras armas e outras estratégias, e que o dia da gloriosa batalha não chegaria nunca. Sem perceberem que não era uma guerra, mas uma guerrilha, aquilo que os esperava – uma guerrilha contínua, diária, com várias frentes – permaneceram estáticos, em expectante suspense, às portas do deserto. 

Só o abandono da fortaleza e a reaproximação à sociedade podem marcar um primeiro passo nesse combate. Antes de ser um técnico ou um artista, o arquitecto é um cidadão que se integra numa determinada estrutura socioeconómica. Que armas levará consigo, é outro assunto; mas só depois desse passo será lícito aspirar a que a arquitectura, num tempo de crise, não seja (apenas) um luxo superficial.

“Inimigo” por Tiago Mota Saraiva, 2012


2012/10/27

“Inimigo” por Ivo Oliveira, 2012

























Maqueta das terras movimentadas para a construção do nó da A41 em Nogueira da Regedoura - Santa Maria da Feira.


BREVE HISTÓRIA DAS FIGURAS ESTRANHAS 
QUE NASCEM À NOSSA PORTA 

Partindo das transformações territoriais ocorridas com a execução do nó de acesso da auto-estrada A41 a Nogueira da Regedoura no concelho de Santa Maria da Feira, pretende-se apontar o dedo aos consórcios “fazedores de estradas” que desenvolveram sofisticados procedimentos que blindaram o território aos agentes externos.
A análise dos documentos que estes grupos manipulam ou produzem (Cadernos de Encargos das Concessões Rodoviárias, legislação sobre as PPP’s, Estudos de Impacto Ambiental, entre outros) permite constatar que são omissos no que se refere à apresentação da circunstância territorial e das soluções espaciais que desenvolvem, e são exaustivos e inacessíveis ao mais aplicado dos cidadãos, no que se refere à caracterização do modelo económico. A inclusão nas concessões de uma imensidão de parâmetros criou um “pacote” tão poderoso que até mesmo os arquitectos, habituados a lidar com coisas complexas, desistiram de a dominar. Para responder a essa complexidade coube aos concessionários a criação de equipas disciplinarmente alargadas nas quais os arquitectos não são a figura que coordena ou apresenta sínteses. Estas equipas que constituem a auto-regulação do concessionário pouco mais são do que uma mera simulação. Apesar disso repousa sobre elas uma aura que tem viabilizado a mais questionável das transformações. É essa aura que permite que nos documentos técnicos que produzem, depois de páginas e páginas de análises comparativas, de previsões, de inquéritos se possa concluir afirmando no início estranha-se e depois entranha-se. Estão assim reunidas condições para que a produção da mais bizarra figura possa ocorrer. 
Esta tem sido a estratégia que suporta as coisas estranhas que por todo o lado surgem. O cidadão até pode ser chamado a participar, no entanto a discussão não irá para lá da escala 1:25.000 e limitar-se-á à escolha de traçados ou à localização dos principais nós de articulação. O cidadão nunca terá acesso a uma prefiguração da transformação dos espaços que habita. A proposta será descoberta já em obra e será o resultado informático do cruzamento entre a resposta à pergunta “quanto é que quer que custe?” e o leque restrito de soluções técnicas disponível. É assim que se alcançam os dois principais objectivos dos fazedores de estradas das últimas duas décadas, garantir que o saldo entre terras retiradas e colocadas seja nulo e mexer muito para que a amarga factura se justifique.