2012/10/29

“Inimigo” por Tiago Lopes Dias, 2012























Pensar no Inimigo leva-me ao romance de Dino Buzzati, “O Deserto dos Tártaros”. 

Este é a história do oficial Giovanni Drogo e da sua estadia no Forte Bastiani. Destacado por quatro meses, que lhe parecerão inicialmente longos e penosos, Drogo começa no entanto a sentir uma estranha afeição pela fortaleza. Fronteiriça a um deserto, isolada da civilização mas povoada por murmúrios de míticos inimigos (os Tártaros) e notáveis façanhas, a inóspita construção vai, pouco a pouco, enfeitiçando Drogo, que ali se deixa aprisionar. Passam os quatro meses, e logo de seguida mais um ano, outro ano, dez anos, acabando por terminar ali os seus dias, tendo por única e fiel companheira a solidão, sem nunca avistar o tão ansiado inimigo. 

O romance de Buzzati permite múltiplas leituras, mas para o que nos une hoje aqui, vou-me centrar na ideia de fortaleza. Só a grande ameaça a justifica, só a perspectiva da grande batalha define com exactidão os seus limites e lhe dá um valor simbólico. Esta era ainda a ideia que presidia (e unia) esse grande bastião chamado CIAM, que tinha o seu alvo bem definido e ao qual não faltava a devida aura mítica. Mas nos últimos 20-30 anos, os arquitectos, tal como Giovanni Drogo, embrenharam-se na construção do seu Forte sem saberem de quem se deviam defender, ou a quem deviam atacar; pior ainda, sem perceberem que a guerra se tinha agora de fazer com outras armas e outras estratégias, e que o dia da gloriosa batalha não chegaria nunca. Sem perceberem que não era uma guerra, mas uma guerrilha, aquilo que os esperava – uma guerrilha contínua, diária, com várias frentes – permaneceram estáticos, em expectante suspense, às portas do deserto. 

Só o abandono da fortaleza e a reaproximação à sociedade podem marcar um primeiro passo nesse combate. Antes de ser um técnico ou um artista, o arquitecto é um cidadão que se integra numa determinada estrutura socioeconómica. Que armas levará consigo, é outro assunto; mas só depois desse passo será lícito aspirar a que a arquitectura, num tempo de crise, não seja (apenas) um luxo superficial.

“Inimigo” por Tiago Mota Saraiva, 2012


2012/10/27

A ARENA DA GRANDE CONCENTRAÇÃO ESTÁ MONTADA

FALAM EM MAÇÃO:

Ana Laureano Alves | “Inimigo: O não-valor”
Ana Vaz Milheiro* | “Neo-colonialismo”
Artur Almeida | “Estágio: Puro eufemismo da palavra exploração”
Bernardo Amaral | “Inimigo: a tirania do Mercado”
Cristóvão Iken |  “Termo de Responsabilidade” 
depA  | “Concursos” 
DINAMO 10 - Joana Carvalho | “Cowork”
Diogo Burnay | “Ensino”
Duarte Pape | “Portugal e os PALOP”
Edgar Brito | "Inimigo: o Engenheiro"
Filipe Borges de Macedo | “This is not a love song”
Filipe Mónica e Luís Afonso | “Inimigo: Os Concursos de Concepção”
Filipe Santos Marinho  | “Wanted: o arquitecto” 
Guida Marques e Maria Manuel | "Inimigo: O arquitecto”
Inês Lobo* | “Representação Nacional”
Ivo Pereira de Oliveira | “Breve história das figuras estranhas que nascem à nossa porta”
João Belo Rodeia* | “Ser presidente da OA”
Joaquim Moreno | “Over-Qualified”
Jorge Figueira* | “Escolas de Arquitectura”
José Gigante | “Parque Escolar”
José Manuel Pedreirinho | “Projectos não construídos Vs. Território não-construido”
Jorge Silva | “O inimigo somos nós”
José Mateus - ARX | “Legislação”
José Paixão – ARREBITA!  | “Pró-actividade”
José Pedro Torres | “Prática profissional no Reino Unido”
Laurent Scanga | “Eu... Eu... Eu... Europa!”
Like architects | “Low-cost”
Luís Santiago Baptista | “Edição”
Manuel Henriques* | “Trienal de Arquitectura”
Margarida Castro Felga | “Política”
Maria Manuel Oliveira | “Grande Obra Pública”
Miguel Figueira* | “Concursos”
Miguel Silva Graça | “Política”
Mónica Martinez Marques | “O plano, o projeto e o inimigo”
MOOV – José Niza, António Louro e João Calhau | “Internacionalização”
Nuno Abrantes | “Persistência Prática”
Nuno Grande | “Cultura arquitectónica”
Nuno Sampaio* | “Cultura de Inovação”
Nuno Travasso | “O Muro”
Nuno Valentim* | “Licenciamento”
Paulo Costa - Peel | “Arquitectura da Terra”
Paulo Martins Barata | “Internacionalização”
Pedro Bismarck | “Cidadania”
Pedro Machado Costa | “Ensino”
Ricardo Bak Gordon | “Grande Obra Pública” 
Ricardo Bastos Areias - CAAA | “Estímulo à criação”
Salvatore Pirisi | “Arquitectos Estrangeiros em Portugal” 
Sami – Inês Vieira da Silva | “Globalização”
Susana Ventura | “Querido Edifício: As casas podem ser de palavras, porque as palavras podem ser, também, armas.”
Tiago Lopes Dias | "Inimigo: a Fortaleza"
Tiago Mota Saraiva | “Concursos/ Adjudicação directa”

 * Sujeito a confirmação

“Inimigo” por Ivo Oliveira, 2012

























Maqueta das terras movimentadas para a construção do nó da A41 em Nogueira da Regedoura - Santa Maria da Feira.


BREVE HISTÓRIA DAS FIGURAS ESTRANHAS 
QUE NASCEM À NOSSA PORTA 

Partindo das transformações territoriais ocorridas com a execução do nó de acesso da auto-estrada A41 a Nogueira da Regedoura no concelho de Santa Maria da Feira, pretende-se apontar o dedo aos consórcios “fazedores de estradas” que desenvolveram sofisticados procedimentos que blindaram o território aos agentes externos.
A análise dos documentos que estes grupos manipulam ou produzem (Cadernos de Encargos das Concessões Rodoviárias, legislação sobre as PPP’s, Estudos de Impacto Ambiental, entre outros) permite constatar que são omissos no que se refere à apresentação da circunstância territorial e das soluções espaciais que desenvolvem, e são exaustivos e inacessíveis ao mais aplicado dos cidadãos, no que se refere à caracterização do modelo económico. A inclusão nas concessões de uma imensidão de parâmetros criou um “pacote” tão poderoso que até mesmo os arquitectos, habituados a lidar com coisas complexas, desistiram de a dominar. Para responder a essa complexidade coube aos concessionários a criação de equipas disciplinarmente alargadas nas quais os arquitectos não são a figura que coordena ou apresenta sínteses. Estas equipas que constituem a auto-regulação do concessionário pouco mais são do que uma mera simulação. Apesar disso repousa sobre elas uma aura que tem viabilizado a mais questionável das transformações. É essa aura que permite que nos documentos técnicos que produzem, depois de páginas e páginas de análises comparativas, de previsões, de inquéritos se possa concluir afirmando no início estranha-se e depois entranha-se. Estão assim reunidas condições para que a produção da mais bizarra figura possa ocorrer. 
Esta tem sido a estratégia que suporta as coisas estranhas que por todo o lado surgem. O cidadão até pode ser chamado a participar, no entanto a discussão não irá para lá da escala 1:25.000 e limitar-se-á à escolha de traçados ou à localização dos principais nós de articulação. O cidadão nunca terá acesso a uma prefiguração da transformação dos espaços que habita. A proposta será descoberta já em obra e será o resultado informático do cruzamento entre a resposta à pergunta “quanto é que quer que custe?” e o leque restrito de soluções técnicas disponível. É assim que se alcançam os dois principais objectivos dos fazedores de estradas das últimas duas décadas, garantir que o saldo entre terras retiradas e colocadas seja nulo e mexer muito para que a amarga factura se justifique.

“Inimigo” por Miguel Silva Graça, 2012




















Deve-se inspirar a todos, e sobretudo aos cidadãos, um afecto pelo governo tão grande quanto possível, para ao menos se evitar que considerem os soberanos do Estado como inimigos. 

"Política", Aristóteles 
 (Livro VI, Capítulo V - Continuação do relativo à organização do poder na democracia) 


Do mesmo modo, deve um príncipe mostrar-se amante das virtudes e honrar aqueles que se destacam numa arte qualquer. Além do mais, deve excitar os seus cidadãos a exercer em liberdade as suas actividades (...), deve instituir prémios para aqueles que desejarem empreender tais coisas e para todos aqueles que, de qualquer modo, pensarem em ampliar a sua cidade ou o seu Estado. Além do mais, deve, nas épocas próprias do ano, dar ao povo festas e espectáculos. E como todas as cidades estão divididas em artes ou corporações de ofícios, deve ocupar-se muito destas, procurando-as algumas vezes, dando provas de afabilidade e generosidade (...). 

"O Príncipe", Nicolau Maquiavel 
 (Capítulo XXI - O que um príncipe deve realizar para ser estimado) 



Obter cem vitórias em cem batalhas não significa o máximo da excelência. A excelência mais alta está em obter-se uma vitória e subjugar o inimigo sem, no entanto, lutar. 

"A Arte da Guerra", Sun Tzu 
(Capítulo III, Estratégia Ofensiva)

“Inimigo” por depA, 2012




















O nosso Amigo é um Inimigo.
Vemos no “modelo Concurso” um amigo enquanto ferramenta essencial para jovens equipas de arquitectos: ferramenta para a experimentação (essencial na fase inicial de carreira), ferramenta para a partilha metodológica e de conhecimento e, obviamente, ferramenta de assalto a um saturado mercado de trabalho. Por outro lado, participar em concursos é um acto insano e insustentável para nós, para a profissão e para o mercado…
Não será melhor começar a jogar à macaca?

“Inimigo” por José Mateus, 2012
























Se há combate estratégico para os arquitectos nos próximos anos, ou se assim quisermos referir, o inimigo a abater, é sem dúvida a legislação ou normativas que comprometem globalmente a nossa actividade. 
Trata-se nomeadamente da formação de arquitectos em excesso; declínio do ensino com a exclusão dos professores com prática intensa de projecto; honorários por regular; concursos demasiado burocratizados e exigentes; licenciamentos incompreensivelmente demorados; normas e legislação da construção desfasadas da realidade sócio-económica do país, e, perda de autoridade do arquitecto na construção dos seus próprios projectos. A agravar este cenário, a legislação é extraordinariamente dispersa, tornando a sua verificação em projecto uma tarefa ainda mais difícil. Por fim, a Ordem dos Arquitectos, a quem compete lutar pela resolução destes problemas, rege-se por estatutos inadequados que comprometem decisivamente a eficácia da sua acção.

2012/10/24

“Inimigo” por Camilo Rebelo, 2012

"A LONG TIME AGO IN A GALAXY FAR, FAR AWAY…"






















MARTE = MCOA


 (Nota da organização: A propósito do projecto para o Museu de Arte e Arqueologia do Vale do Côa, a CPAM enviou um convite a Camilo Rebelo para que fizesse uma breve apresentação sobre a temática “Pós-Grande Obra Pública”)

“Inimigo” por Filipe Mónica e Luís Afonso, 2012

Os Concursos de Concepção 




























O Código dos Contratos Públicos, diploma legal que rege a Contratação Pública mimetizando os regimes legais antecedentes, estabelece, entre outros, dois admiráveis princípios: o foco de qualquer contratação na pura regulamentação da despesa pública, sem uma preocupação explicita em quaisquer critérios de qualidade; e o enquadramento da elaboração de projectos de arquitectura ao mesmo nível que, por exemplo, a contratação de serviços de limpeza. Então não é muito mais fácil contratar projectos como quem vai à mercearia comprar um rolo de papel higiénico? Apresentem-se as propostas, escolha-se a mais barata, adjudique-se! A um canto, em regime de excepção e com carácter opcional, apresenta-se moribundo o Concurso de Concepção. Para quê? Para quem? 
Formalidades e burocracias, avaliações e comparações, custos acessórios e grandes responsabilidades, concorrência desmedida e justificações, tempos excessivos e um enorme manancial de litigância... Não, não... à pressa, porque estamos aflitos e o papel acabou lá em casa. Não interessa se o “Scottex” é melhor. O “Renova” é mais barato e está aqui à mão. Viva o Ajuste Directo!

2012/10/23

“Inimigo” por Artur Almeida, 2012


ESTÁGIO: Puro eufemismo da palavra exploração 






















As pessoas servem-se da verdade quando ela lhes é útil, mas recorrem com retórica paixão à falsidade assim que se deparam com um momento em que a podem usar para produzir a ilusão de um meio-argumento (…) 

GOETHE, Johann Wolfgang von; A Nossa Falsa Verdade 


Etimologicamente, a palavra exploração representa, de um modo sucinto e objectivo, um abuso ou um aproveitamento consciente detido sobre uma determinada situação ou sobre uma determinada pessoa que se encontra, impotente e inconstitucionalmente, numa situação precária desprovida de qualquer tipo de direito, dignidade e, consequentemente, remuneração. 
Neste sentido, julgo que podemos considerar que, embora seja uma palavra histórico-social detentora de um elevado grau de negatividade, a exploração é, no âmbito da disciplina da arquitectura, o termo que melhor substitui e, consequentemente, caracteriza todo o período que, erradamente, todos os responsáveis pela sua criação e pela sua realização descrevem como estágio. Este, constituído por uma enorme diversidade de atrocidades e compadrios, despoletou, como consequência de um controlo diminuto ou inexistente, uma contratação selvagem e desmedida de jovens arquitectos que, infelizmente, estão dispostos a ser explorados até ao limite das suas forças e dos seus conhecimentos sem qualquer tipo de benefício ou recompensa. 
De modo a contrariar e a denunciar todo este sistema eticamente reprovável, acho que chegou o momento em que nos devemos, individual e colectivamente, manifestar dando a conhecer todo o descontentamento e a tristeza que nos envolve quando, indesejavelmente, nos encontramos sob a alçada de um conjunto de pessoas eticamente repugnantes que, enquanto arquitectos empregadores, se aproveitam, alegre e convenientemente, da situação frágil em que nos encontramos. Como tal, através da identificação e do aprofundamento de todos estes factores e de todos os intervenientes que empobrecem, social e disciplinarmente, a arquitectura, pretende-se alcançar, se possível, alguma conclusão conjunta que possibilite uma melhoria significativa deste fenómeno ou sistema que fustiga continuadamente toda esta jovem e qualificada classe trabalhadora! 
Por sua vez, convém salientar que se pretende, ainda, conhecer e discutir qual é a posição, a participação e a mais-valia que o organismo denominado Ordem dos Arquitectos poderá ou deverá representar ao longo de todo este processo, de forma a privilegiar e a defender todos os direitos e todos os princípios éticos ou deontológicos que regem e dignificam a profissão e a actividade do arquitecto. A par da publicação de um regulamento deontológico e da emissão, pontual, de comunicados relacionados com esta temática, considero que a Ordem dos Arquitectos deve procurar ter um papel muito mais activo e preponderante perante este conjunto de entidades patronais fraudulentas e execráveis. 
Em suma, no seguimento de tudo aquilo que foi dito anteriormente, é com um enorme prazer que, com o intuído de contrariar toda esta submissão e de gerar uma desejada reflexão ou discussão conjunta, gostaria de apresentar este tema sensível, incontornável e preponderante na Concentração Portuguesa de Arquitectos em Mação que se irá realizar no mês de Novembro do presente ano. 
Acredito que chegou o momento de dizer, pública e convictamente, basta!

“Inimigo” por Blaanc, 2012


O Sonho tem de morrer




















Tem de morrer o sonho de que se esperarmos sentados nos nossos ateliers, clientes endinheirados entrarão pela porta desejosos de adjudicar edifícios icónicos e sem limite de orçamento. 
Esta realidade é (in)felizmente cada vez menos provável e por isso deveríamos parar para pensar: quem não tem capacidade para contratar um arquitecto não precisa dele? Ou precisará tanto ou mais que todos os outros? O arquitecto de hoje tem de ser pro-activo e de ter a capacidade de reconhecer onde é que o seu conhecimento é mais preciso. 

Tem de morrer o sonho que os nossos únicos clientes são aqueles que nos procuram. 
A maioria dos criativos trabalha para criar produtos para os 10% de população mais rica do mundo. Mas porque não projectar para os outros 90%? 
A arquitectura não deve ser um luxo que só existe onde há dinheiro. Isto quer dizer que temos que ser arquitectos mais competentes e completos com capacidade para identificar problemas e simultaneamente encontrar todas as viabilidades, inclusive a económica para os solucionar, só depois realizaremos o projecto. 

Tem de morrer o sonho de que podemos construir o mundo como uma colecção de luxo de edifícios estrela. De facto, a arquitectura não pode ser livre de compromissos sociais económicos e ambientais, sob pena de tornarmos este pretenso desenvolvimento em insustentabilidade. 
Qual é o preço que estamos dispostos a pagar? 
“Desenvolvimento sustentável é o desenvolvimento que satisfaz as necessidades do presente sem comprometer as possibilidades das futuras gerações satisfazerem as suas próprias necessidades” in O nosso Futuro Comum, Comissão Mundial para o Desenvolvimento (1987). 
Quão longe andamos destes princípios? A verdade é que nos últimos 50 anos já destruímos mais o planeta do que nos nossos 200 mil anos de existência. 

Muitos dos nossos sonhos têm de ser reinventados, temos de reformar os nossos ideais e pensar para além da fluidez dos materiais, dos jogos de luz e da composição das formas. 

“We need to find our passion, we need to find what drives us forward. We are part of a generation of forces coming together. We need to find new ways of thinking and new ways are not bricks, new ways are ideas!” (in URBANIZED)

2012/10/14

“Inimigo” por Cláudio Vilarinho, 2012


Pés ao léu
























Em 2005 a figura do atelier próprio do cv aconteceu.
A classificação de alguma "coisa" está dependente dos critérios associados.
Curricularmente, para estes poucos anos, e para os colegas arquitetos, talvez o cv conseguido seja bom. Curricularmente, para estes longos anos, o cv conseguido não foi bom.
O cv um dia viu um par de meias na montra.
O cv um dia pensou comprar esse par de meias, em dois tamanhos diferentes, para levar para casa.
O cv apenas tinha algum dinheiro para o atelier, mas nunca para o cv.
Um dia, vencido o concurso do primeiro edifício público, o cv pensou comprar as ditas meias.
As meias não eram caras, mas custavam muito dinheiro para os honorários do ambicionado projeto.
Em 2011 com muita, mas mesmo muita força o cv envia o cv para dentro.
Em 2012, passado duas semanas do cv enviar os cvs para onde o Coelho sugeriu, estava aceite uma proposta.
Para além desta proposta, depois, no âmbito do envio dos referidos cvs pelo cv, aconteceram outras propostas.
O mês de Setembro, o primeiro, acabou com um grande, grande sorriso.
As 4 meias de tamanho 26 e 22 são very confortables...

2012/09/26

CHAMADA PARA A CPAM!

CHAMADA PARA A CPAM!
SUBMISSÃO DE PROPOSTAS ATÉ DIA 15 DE OUTUBRO 

A CPAM – Concentração Portuguesa de Arquitectos em Mação – convoca arquitectos, independentemente dos seus credos e motivações, a reunirem-se no centro geográfico do rectângulo português, nos dias 10 e 11 de Novembro de 2012, para enunciar as questões presentes com que se defronta a prática da arquitectura e, naturalmente, apontar saídas possíveis para o cenário de crise que atravessamos.

O núcleo central da CPAM vai ser uma maratona de apresentações contínuas desde a manhã até à hora do jantar no sábado dia 10, no Cine-Teatro de Mação, cuja lotação promete esgotar-se. Haverá um prelúdio nocturno dia 9 para quem quiser chegar mais cedo e montar a arena com os membros da CPAM, e um epílogo matinal no dia 11, dedicado a colar os cacos partidos na véspera.

Cada apresentação será livre, comprometendo-se cada arquitecto a trazer à arena a enunciação de um “inimigo”. Muitos arquitectos já aceitaram o desafio e ainda há espaço para recebermos mais contribuições, para as quais são aceites propostas por candidatura aberta até ao dia 15 de Outubro.
As propostas devem ter até 350 palavras e apenas UMA imagem. Devem ser enviadas em formato WORD para o endereço electrónico cpam2012@gmail.com (indicar em "Assunto": CHAMADA PARA A CPAM_nome do candidato). As propostas seleccionadas para apresentação serão notificadas por e-mail até ao dia 29 de Outubro de 2012. Todas as propostas são bem-vindas. Caberá à organização da CPAM reunir e organizar as propostas para o dia da concentração.

Se for tímido, ou neste momento não lhe ocorrer ter nada para dizer, todos os observadores serão bem-vindos. Estamos ainda a ultimar alguns detalhes na sala, mas aceitamos reservas para participações como observadores ou acompanhantes (custo de inscrição 10€). Nesse caso enviem um email com o título RESERVA OBSERVADOR para o email cpam2012@gmail.com com os seus dados (nome, email e endereço) e confirmaremos os detalhes até meados de Outubro.

Para informações adicionais, siga-nos no blog http://cpam2012.blogspot.pt/ e  no facebook http://www.facebook.com/CPAM2012.

CRONOGRAMA
Envio de propostas até | 15.10.2012
Notificação das propostas seleccionadas para apresentação | 29.10.2012
Apresentação pública de 10 minutos | 10.11.2012 – MAÇÃO

2012/09/17

“Inimigo” por Paulo Moreira, 2012


Photoshop do Gabinete de Arrumação e Estética do Espaço Público






O Gabinete de Arrumação e Estética do Espaço Público [GAEEP] foi criado pela Câmara Municipal do Porto para "transformar a cidade num espaço mais bonito, agradável, destacar a sua riqueza patrimonial e ajudar a combater o vandalismo e a falta de civismo". O site oficial mostra alguns exemplos das intervenções promovidas: relocalizar ecopontos, colocação/pintura de bancos tradicionais, substituição de mecos, etc. Argumentando que "um pequeno pormenor pode fazer toda a diferença", o texto introdutório refere que os resultados dos seus serviços podem ser encontrados "pelos mais observadores" em diversos locais da cidade. Ora, na verdade não é preciso ser um bom observador para encontrar algo estranho numa das "intervenções piloto": uma tampa de pavimento de calçada desalinhada (antes) passou a estar alinhada (depois). Reparem que o GAEEP conseguiu rodar a tampa sem rodar os dois "olhos". Será disto que a cidade precisa, ser um lugar virtualmente mais "arrumado" e "estético”?



Photoshop de Fernando Guerra
















Na busca do "Mundo Perfeito", Fernando Guerra serve-se de alguns truques de Photoshop. Reparem nas diferenças entre as duas fotografias: numa delas, em primeiro plano, uma tomada de electricidade - daquelas caras, desenhada por um arquitecto famoso da nossa Praça, tão bem situada no cantinho inferior da parede, por cima do rodapé - foi apagada. A arquitectura que Fernando Guerra nos mostra não é da autoria de XY ou Z, é a arquitectura "perfeita" de Fernando Guerra. Nada contra o Photoshop, mas respeitem-se os elementos arquitectónicos que compõem uma determinada sala, edifício, ou cidade. Censurar alguns elementos 'mundanos' é, na minha opinião, um desrespeito por quem os desenhou e por quem perdeu horas a decidir o melhor lugar para colocá-los. 

P.S. As imagens que ilustram esta entrada foram retiradas do site "Últimas Reportagens". Não se pretende criticar de modo algum o autor da obra em questão, mas sim a forma como Fernando Guerra manipulou uma das fotografias dessa obra.

“Inimigo” por Rui Furtado e Diogo Seixas Lopes, 2012*

RF: Levei esta semana duas coças monumentais do Paulo Mendes da Rocha. Ideológicas, daquelas de ir para a cama e ficar até às tantas a pensar naquilo. O projecto do Museu dos Coches decorreu durante esta crise e sempre discuti com ele este tipo de questões. Fui acompanhando a evolução do seu raciocínio e transmitindo a minha. O grande tema com que me ataca hoje é o conformismo. Quase que demoniza mais os conformistas que os “inimigos”.

DSL: O “inimigo”, por muito que custe a uma certa correcção política, é um acto de civilização. Temos de identificar um “inimigo” para demarcar a comunidade que queremos construir. A partir daí, há todo o programa de exigência humana que é preciso cumprir. Mas não nos definimos sem um lado contrário.

RF: As coças que levei de Paulo Mendes da Rocha foram nesse sentido. Contra o conformismo. Ele dizia: “isto é assim porque deixas que seja assim.” É preciso ter clareza de ideias que só alguém como ele consegue ter. É evidente que viver no Brasil faz toda a diferença, porque aquilo não está contaminado pelo sistema como isto está.

"Diogo Seixas Lopes entrevista Rui Furtado – O material tem sempre razão", JA 245, Abr/Jun 2012

* (Sugestão de Matilde Seabra)




2012/07/16

"Inimigo" por Joana Couceiro, 2012

QUID TUM? [1] 

«Quanto a mim, proclamarei que é arquitecto aquele que, com um método seguro e perfeito, saiba não apenas projectar em teoria, mas também realizar na prática todas as obras que, mediante a deslocação dos pesos e a reunião e conjunção dos corpos, se adaptam da forma mais bela às mais importantes necessidades do homem. Para o conseguir, precisa de dominar e conhecer as melhores e mais importantes disciplinas. Assim, pois, deve ser o arquitecto.

(...) 

Esta é a minha firme convicção: todas as cidades que, desde a mais recuada memória dos homens, caíram sob o domínio do inimigo, em consequência de um cerco, se lhes perguntarmos por quem foram conquistadas e submetidas, elas dirão que foi por um arquitecto, e que facilmente zombaram de um inimigo armado, mas não conseguiram aguentar durante muito tempo a força do engenho com que o arquitecto lhes apertava o cerco, as fortificações gigantescas com que as submergia, o ímpeto dos canhões com que as atormentava. E, pelo contrário, aos sitiados, nunca aconteceu sentirem-se tão seguros como com o auxílio e os estratagemas do arquitecto. Por fim, se recordarmos as expedições passadas, verificaremos certamente que foram alcançadas mais vitórias pelas artes e valor do arquitecto, do que pelo comando e auspícios de qualquer general; e que o inimigo sucumbiu mais vezes ao engenho daquele sem as armas deste, do que à espada deste sem os planos daquele. E o mais importante é que o arquitecto obtém a vitória com um pequeno exército e sem perder vidas.»

Leon Battista Alberti, «Da Arte Edificatória», Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2011, págs. 138, 139, 140. 

[1] Tradução: “E AGORA?”

2012/06/26

"Inimigo" por Pedro Bandeira, 2012



















No mundo realmente invertido, o verdadeiro é um momento do falso” 
(Guy Debord, Sociedade do Espectáculo)


No final de Maio deste ano a Galp lançou no Porto (imagino que também em outras cidades) uma campanha publicitária com o slogan: “a Galp tem mais uma energia positiva para a sua vida: a eletricidade”. Visível em outdoors de rua, esta publicidade tinha a particularidade de ter o logotipo da Galp constituído por duzentas e cinquenta e cinco lâmpadas que estavam acesas 24 horas por dia. Para quem elege a “sustentabilidade” como “responsabilidade corporativa” não deixa de ser, no mínimo, irónico. 

O supermercado Pingo Doce vende pipocas de marca própria, para micro-ondas, em embalagens cuja imagem gráfica assenta numa fotografia de uma sala de cinema nos anos 50 cheia de espectadores com óculos 3D*. A mesma imagem que está hoje, inegavelmente, associada a Guy Debord por ter sido capa da versão inglesa da Sociedade do Espetáculo. Não deixa de ser também, no mínimo, irónico que Debord, o bom usurpador de imagens de outros, veja a sua técnica de desvio situacionista (o détournement) explorada pela própria sociedade de consumo que critica. 

Ou será, afinal, a imagem que regressa ao seu lugar legítimo e de origem? Não é o Cinema o lugar das Pipocas e do Espectáculo?

Aparentemente (só aparentemente) os conceitos e as palavras foram desprovidas de significado, talvez pelo uso excessivo (pensamos, falamos e escrevemos demais). Aparentemente (só aparentemente) as imagens e os desenhos foram desprovidas de significado, talvez pelo uso excessivo (imaginamos , projectamos demais). Mas sofremos de horror vacui. Horror ao vazio; ao espaço em branco de uma folha de papel; ao silêncio de uma conversa a dois. 

Palavras e imagens que, do permanente confronto a que estão sujeitas, acabaram por se desgastar dando lugar ao consenso possível, expressão do relativismo contemporâneo, em que mesmo a nostalgia por qualquer ordem positivista é invalidada pelo próprio conceito de positivismo: “o Positivismo é um conceito que possui distintos significados, englobando tanto perspectivas filosóficas e científicas do século XIX quanto outras do século XX. Desde o seu início, com Augusto Comte (1798-1857) na primeira metade do século XIX, até o presente século XXI, o sentido da palavra mudou radicalmente, incorporando diferentes sentidos, muitos deles opostos ou contraditórios entre si” (Wikipedia). 

Contraditórios entre si. Tudo é válido. Uns estão doentes. Outros estão ausentes.

Estou a dizer que a burocracia se arrogou o direito de definir certos estados da mente como “doentes”. Uma falta de desejo de gastar dinheiro torna-se um sintoma de doença que requer medicação dispendiosa. Medicação essa que, depois, destrói a libido, ou, por outras palavras, destrói o apetite pelo único prazer que da vida que é grátis, o que significa que a pessoa tem ainda de gastar mais dinheiro em prazeres compensatórios. A própria definição de “saúde” mental é a capacidade de participar na economia consumista. Quando investimos em terapia, estamos a investir em comprar. E estou a dizer que, pessoalmente, neste preciso momento, estou a perder a batalha com uma modernidade totalitária comercializada e medicalizada”. (Jonathan Frazen, Correcções)

E a Arquitectura? 

A arquitectura também.

2012/06/23

"Inimigo" por André Tavares, 2012

Quem vai à Guerra dá e leva.


Não precisamos de inimigos. Compreendo a nostalgia anacrónica do Michel Toussaint, mas desenganem-se, nunca os arquitectos foram modernos e inteligentes versus reaccionários e estúpidos. A história já nos provou que olhar para o passado dessa forma apaga mais do que mostra: tudo é bastante mais complexo. Já o argumento do Pier Vittorio Aureli é mais atento e partilho com ele essa necessidade de contra-argumentar, de me entender por relação negativa com aquilo que me envolve. Talvez por isso mesmo diga: O quê? Inimigo? O meu inimigo é acreditar que ter um inimigo serve para alguma coisa. Meus caros amigos da Meta, compreendo a história do inimigo (conversámos sobre ela) mas não me convencem. Querem pancada, segue já a primeira estocada. Fogo amigo, diziam? Mas este fogo amigo não adianta a ninguém. Serve só como treino, porque todos sabemos o provérbio: Quem vai à Guerra dá e leva. Por isso, vamos a isso, mas vamos juntos. 
Porque é que eu digo que não precisamos de inimigos? Porque para isso precisávamos de saber o que queríamos, e não sabemos. Sabemos que queremos uma sociedade mais justa, que queremos menos ganância e mais partilha, que queremos, como arquitectos, ter oportunidade de construir, de transformar e de aplicar o nosso saber, hoje. E assim transformar as nossas cidades, a paisagem, a sociedade, em função dessa ambição que temos para existir. E sabemos, ou pelo menos esperamos que o nosso contributo venha a ser positivo e que daqui a uns anos possamos ser mais felizes. Mas? Como é que queremos fazer isso? Desconfio que não sabemos, talvez só se saiba depois de estar feito, isto porque sabemos que queremos fazer. 
Então para que vai servir o CPAM, para além de poder ser uma grande festarola? O que precisamos é de querer. E de sabermos ser capazes de fazer o que queremos. O resto é conversa.
Por isso é que insisto na inoperância do inimigo. Só poderemos ter um inimigo quando tivermos uma posição a defender (que não temos) ou um território para conquistar. Como não temos um território nosso, não podemos fazer frente a ninguém, sob pena de não termos terreno para recuar se a coisa estiver a correr mal. E não temos esse terreno. Não temos uma ideia comum ou um ponto de referência. Partilhamos apenas um certo desespero. Ou será que me engano?
É para isso que pode servir o CPAM (espero). Não para ser mais uma mítica reunião de arquitectos desesperados, mas para entendermos qual o nosso ponto de referência. O inimigo virá depois, naturalmente. Os inimigos, porque somos ambiciosos e o que está mal está no plural, em muitas frentes.